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Memórias de Cotia
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Professor Marcão traz toda semana uma nova prosa de assuntos que destacam a memória de Cotia e outras conversas.

EDUCAÇÃO
Dona Esmeralda, uma moradora de rua
Nenhum tipo de preconceito pode ser proposta de vida
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Postada em 26/08/2017 ás 10h00 - atualizada em 28/08/2017 ás 21h13
Dona Esmeralda, uma moradora de rua

Quem era aquela mulher que dormia na praça em frente à padaria? Durante o dia perambulava pela cidade. Recolhia restos de comida e verduras no lixo do Hiper Mercado e ali no canto da praça, em um fogão a lenha improvisado preparava seu almoço, e no início da noite o jantar. Habituado com sua presença ali na praça comecei a observá-la e notei algo diferente naquela senhora. Vi algo fora do comum, para quem vive na rua. Diferente dos outros moradores de rua. A sua comida, mesmo sendo encontrada no lixo, era cheirosa demais! O aroma da comida tomava conta da praça. Alguns comerciantes e transeuntes torciam o nariz quando sentiam o cheiro da comida e tinha alguns que verbalizavam como é que um alimento achado no lixo podia cheirar tão bem assim. Outros diziam que não tinham coragem de comer aquela comida. Gente cheia de… sabem né! Opinião de quem vive de fora deste mundo da rua.  Gente alienada da realidade.


Bem de manhã, Dona Esmeralda preparava um café que perfumava a praça e adjacências. Aos poucos iam chegando outros moradores de rua, alguns que traziam na mão um saquinho de pão e embalagens com leite. Mesmo diante de tanta miséria a solidariedade reinava entre eles. Chegavam tão discretamente que não era percebida nenhuma algazarra. Parece que tudo era organizado para não serem percebidos. Invisíveis para a sociedade. Talvez seja assim que queriam parecer.


Na liderança, Dona Esmeralda.  No tempo do inverno o número de moradores de rua aumentava consideradamente, mas mesmo assim, se mantinha a ordem. Alguns mendigos ficavam distantes do lugar onde era servido o café, quando com um simples gesto com as mãos de Dona Esmeralda, eles se aproximavam. Era respeitada pela gente da rua. A cada dia Dona Esmeralda chamava mais minha atenção. Uma líder nata. Toda mobilização que ela promovia naquele espaço público era feita com discrição. Quem era aquela senhora?


Num dia chuvoso tentei uma aproximação. Foi uma aproximação desastrosa! Respondeu com firmeza e educação, antes que eu falasse alguma coisa: não preciso de ajuda de ninguém e nem de misericórdia. Entendi aquela repulsa pela gente do meu mundo. Os moradores de rua tinham motivos de sobra para evitar nosso mundo considerado “normal”. Os moradores próximos da praça eram grosseiros e sempre estavam hostilizando os seres humanos maltrapilhos que viviam ali. Numa noite um carro passou em alta velocidade e atiraram uma vasilha com fezes naqueles mendigos. E gritavam palavras carregadas de impropérios. Os transeuntes faziam comentários desnecessários do tipo “gente suja, gente mal cheirosa” e outros pediam a higienização da praça. Umas propostas apresentadas em uma assembléia de moradores sugeriam que aqueles mendigos fossem colocados em um galpão da prefeitura. Gente vagabunda. A atitude de Dona Esmeralda quando tentei aproximação não poderia ter sido outra. Mesmo assim, não desisti da ideia de saber quem era aquela senhora.


Observando Dona Esmeralda de longe e cuidando para que ela não percebesse, todo mês, via que ela entrava na agência bancária da praça, ia até ao caixa, conversava e saía com um embrulho que parecia ser dinheiro. Ora, se ela tinha conta em uma agência de banco, então tinha uma família. Tinha uma história. Tinha documento. Tinha uma identidade. Eu conhecia a caixa do banco que atendia a senhora. Depois de um tempo me aproximei da caixa e perguntei quem era aquela senhora. Ela ficou assim, meio que desconfiada comigo. Como eu era cliente do banco, me contou o que ela sabia sobre Dona Esmeralda. Pouca coisa. Tinha realmente uma conta bancária e todo mês ia receber a aposentadoria que o marido policial tinha deixado a ela. Dona Esmeralda era viúva. Todo mês ela pegava uma pequena parte do dinheiro da aposentadoria e o restante da grana depositava na conta de um dos seus filhos.


Sabe quando o povo resolve usar a imaginação?  Diziam que ela tinha sido abandonada no dia do casamento e resolvera tornar-se uma andarilha. Diziam que depois de ter descoberto a traição do marido ficou louca. Povo linguarudo e maldoso. Uma coisa era certa neste falatório todo: ela falava Inglês fluentemente. Um Português impecável. Os traços no rosto eram de uma mulher que tinha sido bem tratada. Os fofoqueiros da praça diziam que ela tinha exercido a profissão de professora e de tanto estudar tinha ficado louca. Verdades ou não sobre sua história, agora eu sabia que ela tinha uma conta bancária, filhos e um marido já falecido. Aos poucos ia descobrindo quem era Dona Esmeralda. Mas ela ainda era hostil à aproximação de qualquer pessoa. Parecia que não queria que seu mundo se misturasse ao nosso.


Aos poucos fui percebendo que ela conversava com o senhor Antonio verdureiro. Passava horas ali na banca de verduras de cabeça baixa e falando entre lábios com ele. Sobre o que será que falavam? Talvez o senhor Antonio tivesse mais informação sobre Dona Esmeralda. Uma tragédia no final de semana quase interrompeu minha investigação. A prefeitura cedeu à pressão dos moradores do bairro e começou uma limpeza à força, enviando os mendigos para cidades vizinhas. Muitos moradores de rua receberam passagens para que eles fossem para suas cidades de origem, compulsoriamente. Tudo isto à surdina. Tudo isto na calada da noite. O que os agentes públicos não esperavam era que houvesse resistência. E houve! Dona Esmeraldo com um grupo de mendigos em farrapos se colocou em defesa dos amigos. Foram espancados e infelizmente Dona esmeralda levou uma cacetada na cabeça e foi internada, correndo risco de vida. Ela ficou meses em coma e distante das ruas.


Neste período de ausência de Dona Esmeralda me aproximei do verdureiro, e aos poucos fui ganhando sua confiança. Ele me revelou o que eu já sabia, mas não tinha certeza, que ela era realmente professora de línguas estrangeiras. Na banca de verduras, com aquele gesto de abaixar a cabeça, ela não queria ser percebida e ensinava Francês para o velho verdureiro. Ensinava Inglês também.  Soube dela que era professora e mais nada disse o verdureiro. Poucos dias depois a praça estava cheia de moradores de rua novamente, e depois de um tempo apareceu Dona Esmeralda. Agora debilitada, e com o lado esquerdo do corpo quase neutralizado e arrastando as pernas. Falava com a língua enrolada. A pancada fora forte demais. Não ia mais ao banco. Não cozinhava mais. Um olhar triste e distante. Era evidente a deterioração de um ser humano… Um dia quase parti para cima de um comerciante da praça, que comentava em um grupo de pessoas “está toda estropiada e não morre, deveria ter morrido”. Perdi a compostura e mandei o cara para…


Em uma conversa reservada com a caixa do banco fiquei sabendo que ela recebeu a visita de um dos filhos no hospital, uma única vez, enquanto estava internada. O filho, acompanhado de sua esposa, levou um papel do banco com um pedido autorizando que eles tomassem conta da sua conta bancária. Ela assinou aquele papel em silêncio e de cabeça baixa. Nem um abraço ganhou do filho e da nora que não via há tempos. Nem um beijo. Duas semanas da sua volta à praça aconteceu outra tragédia. Num final de semana, um grupo de jovens de classe média colocou fogo em dois moradores de rua. Como justificativa do ato de barbarismo disseram que estavam brincando, tinham acabado de sair de uma balada. Temia pela vida daquela senhora. Uma semana depois da tragédia os jovens saíram pela porta da frente da delegacia, pagaram a fiança. Um comentário de um dos pais dos jovens criminosos: “Imagina meu filho ficar preso por causa destes farrapos humanos”.
Aos poucos, mesmo com dificuldade, Dona Esmeralda foi voltando à rotina da praça.


Continuou transmitindo conhecimentos ao verdureiro, apesar da limitação provocada pela cacetada na cabeça. E veladamente o homem me trazia informações sobre ela. Descobrira que ela é que tinha abandonado a família, e não o contrário. Não era respeitada pelos netos que a chamavam de velha gagá, principalmente quando não liberava o parco dinheiro que recebia. Não tinha liberdade em sua casa. Aos poucos foi sendo jogada de lá para cá, até ser colocada num quartinho isolado no fundo da casa. A nora que a agradava na frente das visitas, na intimidade resmungava da sogra para o marido. Um dia Dona Esmeralda saiu escondida e escolheu a rua como moradia, onde viveu muitos anos. Longe da família. Pelo menos naquela praça era respeitada pelos seus pares.


Porém a hostilidade na rua aumentava a cada dia, embora a solidariedade de instituições religiosas e das pessoas também aumentasse. Em um ano de noites de muito frio, Dona Esmeralda foi vencida. Foi encontrada morta em um espaço entre a padaria e uma casa onde tentou se safar do frio. Foi encontrada congelada. Enterrada como indigente. Não apareceu ninguém para reclamar o corpo. Penso que teria ainda muito que saber de Dona Esmeralda. Penso em cada morador de rua ali naquela praça, com histórias semelhantes ou diferentes da dela. Penso na desumanização da sociedade. Aonde chegaremos assim? Cinco anos depois apareceu um dos filhos de Dona Esmeralda, perguntando por ela. Disse que precisava encontrá-la para assinar um documento para que ela autorizasse a venda de uma de suas casas. Naquele dia me vinguei pelo desprezo com que aquele “filho da…” tratara a sua mãe. Disse com alegria no coração que ela não era vista por ali há muito tempo. Ele virou as costas e foi embora sem saber que sua mãe tinha falecido.


Nenhum tipo de preconceito pode ser proposta de vida.

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