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tristes trópicos

Mercado de livros encolhe 11 por cento em 2018

livrarias físicas estão fechando as portas

10/05/2019 15h40Atualizado há 2 meses
Por: Jacson Andrade
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É com grande pesar que anuncio o fechamento de uma das minhas livrarias preferidas.

Num sábado qualquer, como de praxe peguei  o elevador que sai dentro da livraria Saraiva no shopping Higienópolis. Para minha surpresa a porta de vidro, que eu desconhecia a existência, estava trancada e a loja apagada com algumas caixas pelo chão empoeirado.

Me deixou mais triste, o fato que eu não passava por ali fazia algum tempo e minha última compra foi uma pasta de elástico, sem graça, para guardar documentos. Tenho muita culpa nesta tragédia anunciada. São muitos os motivos para o encolhimento do mercado de livros brasileiro e o principal deles é que o brasileiro não lê.

Voltando à livraria, ela fez parte do final da minha adolescência. Sem dinheiro para comprar qualquer livro, passei muitas tardes no sofá que havia embaixo da escada lendo tudo que eu podia pegar. Ainda era livraria Siciliano, o formato era praticamente o mesmo. Não existia a livraria Cultura do conjunto nacional, com seu cheiro de café e sua decoração divertida porém sofisticada, playground  de hipsters.

Na Saraiva/Siciliano nunca fui incomodado pelos vendedores. No entanto, certa ocasião peguei no sono e fui acordado bruscamente por um senhor que beirava os noventa anos:

- Aqui não é lugar de dormir!!!!

Meio assustado, demorei para entender o que estava acontecendo e já ia falar todos os palavrões que eu conhecia mas, respeitei os poucos cabelos brancos do Sr. Ruy.

Em seguida ele perguntou o que eu estava lendo, mostrei a capa (Inferno do Dan Brown).

- Uma merda, pelo menos está lendo alguma coisa.

Ao lado, estava uma senhora com uma revista de fofocas, que comentou que os filhos não liam por mais que ela incentivasse.

- Não lêem porque a Sra.  é uma burra! Como vão se interessar por literatura se você lê esse tipo de porcaria?

A dona se levantou indignada, mas não respondeu nada.

Achei aquilo cruel mas não pude deixar de rir. Havia ali uma franqueza que só a idade permite, sem ter um soco na cara como resposta.

O Sr. Ruy puxou assunto e tivemos uma conversa mais agradável (acho que a dose de ódio já havia sido destilada). Ouvi boas histórias e me diverti com o mau humor daquele octogenário.

Não vou esquecer deste dia e do quanto aprendi sentado naquela livraria, que por muitos anos foi um refúgio do caos da cidade e da falta de grana. É uma pena que aquele lugar tenha sido  vítima do nosso desapego com o estudo e com a cultura.

O mercado livreiro encolheu e nós estamos encolhendo juntos,  nestes tempos onde buscar conhecimento é malvisto. Tempos de terra plana e uniforme azul ou rosa.

@jacbighouse

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