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cinema em risco

Cortes na Ancine pode levar a produção ao colapso

proposta é vista como tentativa de censura

25/07/2019 21h10Atualizado há 4 semanas
Por: Jacson Andrade
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Cena do premiado filme Central do Brasil
Cena do premiado filme Central do Brasil

Cortes na Ancine pode levar a produção ao colapso

O patrimônio se deteriora

Hoje, logo pela manhã li, estarrecido, que o presidente da República Federativa do Brasil (República de soja e agrotóxicos) pretende impor um filtro temático nas produções financiadas através da Ancine - Agência Nacional de Cinema, ou acabar de vez com a agência responsável por financiar, regulamentar e estimular a produção cinematográfica no país.

Tal órgão, juntamente com as leis de incentivo foi o responsável pelo salto de produção a partir de 1995, quando da criação da lei do Audiovisual, iniciando a era da chamada Retomada do cinema brasileiro.

Portanto, não é exagero dizer que o fortalecimento da Ancine possibilitou sucessos como “O quatrilho”; “Central do Brasil”; “Cidade de Deus”; “Carandiru”, “Carlota Joaquina”, “Tropa de Elite”, “linha de passe” também auxiliou na produção e distribuição de coproduções do calibre de “Leoneras”, “O banheiro do papa” e “Diários de motocicleta”  

Recentemente, o filme “A vida invisível de Eurídice Gusmão” de Karim Ainuz ganhou o prêmio da mostra paralela do festival de Cannes “Un certain Regard” que visa premiar obras pouco convencionais e novos diretores. Este prêmio além do prestígio aos premiados, garante distribuição internacional ao filme laureado. 

Pouco depois, foi a vez do filme Bacurau do Kleber Mendonça dividir o Prêmio do Júri com um filme francês “Les Misérables” (não confundir com o clássico da literatura/cinema/musical) de Ladj Ly. É importante dizer que este é o terceiro prêmio mais importante do festival. E o que nos interessa?

Ora, constantemente vejo as pessoas dizerem que não gostam do cinema brasileiro, talvez com a palavra dos jurados e da crítica internacional as pessoas vejam a obra despidas de seus preconceitos em relação à produção nacional – vejamos: somos duplamente complexados: achamos que o produto estrangeiro é melhor e só vemos aquilo que é chancelado pelos gringos.

Estes prêmios, apesar da importância, foram solenemente ignorados pelo poder público estabelecido. E, não é exagero dizer que os governantes da “nova” política não gostam muito de artes plásticas, música, cinema ou carnaval. Também não são muito adeptos da cultura popular e são incapazes de compreender o valor da produção cultural, inclusive do ponto de vista econômico.

Na mesma época dos prêmios citados, a cantora Elza Soares foi agraciada com o título de doutora “honoris causa” pela Universidade Federal (balburdia!) do Rio Grande do Sul. Título concedido a pessoas com relevantes serviços prestados à arte, cultura, ciência e/ou educação. Elza é a primeira cantora e a segunda pessoa negra a receber tamanha honraria da Universidade. 

Não é preciso dizer que a voz do milênio é um patrimônio da Cultura brasileira, que superou a pobreza e todas as formas de privações para se tornar a rainha que é numa carreira de mais de 60 anos.

Hoje, por questões de saúde, canta sentada e sua voz rouca e deliciosamente grave é o cetro que conduz multidões. Os últimos álbuns são mais políticos e contestadores, mas Elza Soares é nome e sobrenome de luta, contra a violência, racismo e machismo. 

Mais uma vez, silêncio dos nossos líderes. 

Estamos numa era de reconhecimento da arte brasileira e Chico Buarque também foi premiado, dessa vez com Prêmio Camões, concedido por Brasil e Portugal aos escritores lusófonos, Chico o recebeu pelo conjunto da obra.

Ouvi alguns murmurarem que um cantor/compositor não poderia receber um prêmio de literário. Esses mesmos aplaudiram Bob Dylan pelo Nobel de literatura. Difícil né?! Essas pessoas se esquecem que o Chico é compositor, dramaturgo, cantor, escritor e fundador do Politheama – time referência do futebol carioca. 

Silêncio...

No último dia 06 faleceu João Gilberto, gênio reconhecido internacionalmente por ter criado a Bossa Nova, gênero que difundiu o Brasil mundo afora e se tornou referência para diversos artistas tanto aqui quanto no exterior. A perda deste grande artista foi amplamente lamentada. Desaparecia mais um mestre. 

Desta vez o grande chefe brasileiro fez o seguinte comentário:

“Uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?” 

Vão dizer que ainda foi melhor que a inexistente nota de falecimento da grande dama do samba, Beth Carvalho, que foi ignorada por ser “esquerdista”. Como se o reconhecimento do talento e da contribuição para a música tivessem que passar por filtros ideológicos. Na verdade, filtros dessa espécie tem nome: Censura! Que é o que se pretende na Ancine.

Agora, porquê falar desses prêmios e dessas enormes perdas?

Porque a cultura está sob ataque vide o fechamento do ministério que por ela respondia. O dinheiro para produções culturais no Brasil cada vez mais curto e há um discurso falso de que é necessário escolher entre investir em saúde, educação e saúde ou em cultura. Como se a produção e consumo de produções artísticas não fosse parte da educação de uma sociedade.

Não! A cultura vai além, ela é a crônica de uma sociedade no tempo e os mais poéticos diriam que a cultura é a alma de um povo. 

Então, é necessário que os premiados sejam respeitados e os grandes artistas celebrados. É necessário que lutemos por mais verbas para a produção cultural. É necessário distribuir a obra de Chico, Elza, Karim, Kleber Mendonça, Beth Carvalho, João Gilberto e muitos outros, principalmente aos mais carentes.

Não nos esqueçamos da música dos Titãs: “a gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte”. Precisamos formar público, para que os teatros e os museus não fiquem vazios. É preciso manter ativa nossa memória coletiva. É necessário gritar ao mundo nossos sotaques, nossas músicas, nossas cores e nossas dores. Isto é cultura!

Ainda seguindo a toada dos Titãs precisamos de alimento para o corpo, sem, contudo, deixar de alimentar a alma de um povo inteiro.

@jacbighouse

 

Facebook: Jacson Andrade

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