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Romance hilário

O bom soldado Svejk e como nascem os clássicos

livros como tradutores do nosso tempo

12/08/2019 09h59Atualizado há 2 meses
Por: Jacson Andrade
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Svejk indo para o Exército
Svejk indo para o Exército

Clássicos são clássicos por alguma razão. Normalmente são chamadas de clássicas as obras que capturam o espírito do seu tempo e conseguem transcendê-lo. Temos Ana Karenina de Tolstói, com seu amor profano na Rússia monárquica esfregou na cara da nobreza a hipocrisia vigente na época.

Por aqui temos o Machado de Assis de Assis com seu Dom Casmurro e a eterna dúvida do Bentinho se foi chifrado ou não pela Capitu e com isso, retratou a angústia e o machismo do  homem médio que o afastou da mulher amada. São apenas 22 anos entre a publicação destas grandes obras sobre traição (ou não).

Nomear clássicos acaba definindo a identidade de cada país. Shakespeare para os ingleses, Camões e seus Lusíadas para os portugueses, Cervantes para os espanhóis, Goethe para os alemães, por fim Dante e Homero são sempre indicados. Dizem que é quase impossível  ser “culto” se não conhecer essas obras.

O problema é que muitas vezes os clássicos tem uma linguagem rebuscada, são um tanto quanto monótonos ou difíceis de digerir. Tais cânones também são associados a uma tarefa escolar das mais chatas e o vestibular mata o prazer de ler, por exemplo: “Memórias de um Sargento de Milícias” (engraçadíssimo como diria Cosme, o tio de Bentinho).

Mas, dentre as grandes obras, uma das que mais amo é “O bom soldado Svejk”- o nome da personagem principal é impronunciável e foi escrito pelo também impronunciável Jarolav Hasek que conta as desventuras do militar que se apresenta para lutar na segunda guerra mundial.

Já nas primeiras páginas chorei de rir, Josef é um vendedor de cachorros de “raça” que pega vira-latas nas ruas e tosa o pelo dos coitados com o intuito de que pareçam bem nascidos e constrói, inclusive, árvores genealógicas para os bichos. Isto quando não rouba cães de outras pessoas para revender.

Ao pressentir o início da guerra ele pede para a sua empregada levá-lo num carrinho de mão até o batalhão mais próximo. A ideia era demonstrar patriotismo e se colocar à disposição apesar do reumatismo.

Os superiores não acreditam nessa história de patriotismo e Xeveique (parece que é assim que se pronuncia) é enviado para a prisão sob a suspeita que a alegada doença e a cena montada tinha uma única finalidade: ser dispensado da Guerra por incapacidade física.

No decorrer da história nosso querido soldado e preso diversas vezes e por fim é considerado um idiota, aqui ficamos na dúvida, já que o herói possui um caráter duvidoso e não sabemos se ele é um perfeito imbecil ou se age com pura malandragem. Não importa, pois se mete nas maiores confusões, é um tremendo pé-de-cana e não consegue cumprir qualquer tarefa simples.

Foi preso por não se apresentar ao batalhão, porque gastou em bebida o dinheiro das passagens, foi preso como espião por que estava vestido num uniforme do inimigo na guerra, os russos.  Uniforme ele resolveu experimentar ao encontrá-lo na beira de um rio.

Ao ser levado com espião se mantém impassível e por isto foi considerado um gênio, um cara de fibra que não teme a prisão nem a morte. Fato é que o idiota não fazia nenhuma ideia do risco de ser fuzilado após o julgamento marcial.

 Há momentos que o soldado se dá bem, sendo promovido ou acaba trabalhando com pessoas importantes que lhe garantem alguma proteção. Mas sempre acontece alguma tragédia que o tira de seu caminho.

É unanime que o Romance ridiculariza a incompetência das autoridades e os absurdos da guerra. Pena que a história é inacabada e o autor, tão irresponsável quanto a sua criatura, faleceu de insuficiência cardíaca, não sem antes participar de outras batalhas e viver na boemia.

Apesar disso, acredito que seria possível escrever um final para magnífica e hilariante obra. No caso Joseph sairia de um soldado estúpido para presidência de seu país eleito com o discurso patriótico e lutador voraz em defesa dos interesses da República Tcheca.

No entanto o  grande herói liquidaria o patrimônio do seu país com a mesma boa-fé que praticava nos tempos de revenda dos cachorros de raça

 A única coisa que eu duvido é o bom soldado defendendo que os seus concidadãos façam cocô dia sim dia não para auxiliar na preservação do meio ambiente.

Diferentemente de outros bons soldados.

Estamos num tempo propício para o surgimento de novos clássicos.

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