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quadrinhos infância

Mafalda faz 55 anos e as memórias dos afetos

“Como são belos os dias do despontar da existência” (Casimiro de Abreu)

10/10/2019 20h25Atualizado há 2 meses
Por: Jacson Andrade

Sentado junto a porta do bar acompanhado de uma Original bem gelada. O paletó, a gravata e o fórum do outro lado da rua entregam minha profissão. Duas mesas à frente sentou-se um senhor e pediu caipiroska de lima-da-pérsia com Sminorff, aproveito e chamo o “amigo” garçom para reabastecer meu copo.

Meu companheiro no bar praticamente vazio sorri e observa: “não se deve ter problemas com juristas e muito menos com garçons” dei risada e arrematei que eu era obrigado a lidar com ambas categorias.

Mesmo em mesas separadas o papo rendeu. Falamos sobre livros, música, política, cinema e educação acessível para todos, sobre a qual chegamos a conclusão  que é desejo de comunista. Provoquei: “qual foi o último livro de poesia que você abriu?

Lembrei que comecei a ler por causa da série vagalume e de outra superengraçada “Para Gostar de ler” focada em contos e um deles eu não esqueço jamais é o d’A velhinha contrabandista do Stanislaw Ponte Preta.  Também defendi a importância do FEBEAPÁ I e II (Festival de Besteiras que Assola o País) desse autor que foi o José Simão do seu tempo, talvez um pouco mais elaborado e imaginativo.

De repente falamos sobre memória e concordamos que a memória não é valorizada, não há memória arquitetônica no Brasil, a literária só no vestibular e a afetiva ficou para os sentimentalistas, nostálgicos e ingênuos.  Não sei em qual categoria eu me encaixo mas não canso de revisitar o cheiro de alho fritando para temperar o feijão. A casa pequena construída no meio do terreno nos permitiu um quintal cimentado e um pomar enorme nos fundos.

Tínhamos um pé de ameixa gigante, quatro pés de amora que deixava as mães vizinhas doidas com as manchas nas roupas dos filhotes ramelentos, manga laranja, limão, abacate, mexerica, boldo, café, pêssego (não era dos melhores) e bananas, muitas bananas faziam com que minha casa estivesse sempre lotada de primos, a molecada da rua e o povo da igreja. Solidão era luxo.

Para mim a casa era enorme porque ultrapassava a rua, era a vizinhança, os terrenos baldios, o campinho, o matagal e as construções inacabadas. Vivia desgrenhado, cabelos duros de poeira e os pés descalços me davam um ar de criança abandonada, havia uma certa ferocidade no rosto zombeteiro. O pai de um colega me chamou de “moleque de rua”. Respondi com todos os palavrões que eu conhecia.

As coisas eram mais simples, quase morríamos de alegria quando alguém cavava um barranco e jogava a terra fofa numa ribanceira. Convite para rolar ladeira abaixo e jogar pedra de barro nos outros.  Quantos tampões do dedão não deixamos no asfalto, cortes, queimaduras, hematomas eram tatuagens passageiras ou não de uma vida ao ar-livre. Consigo ouvir em qualquer lugar o padeiro chegando às 4h30 da manhã e sentir o cheiro da fornada de pães recém tirada.

Crescer assim permitiu que construíssemos um forte senso de comunidade e até hoje amo beber com meus vizinhos, a maioria tem o dobro da minha idade, mas estavam lá quando eu brigava na rua, quando minha irmã foi atropelada, quando meu pai faleceu. Outrossim, foram os primeiros a comemorar quando entrei para a universidade e mais tarde quando fui aprovado no exame da OAB.

Para além do meu lado “selvagem” e maltrapilho não faltaram livros. Começamos com os quadrinhos: Turma da Mônica; Tio Patinhas; Tex e evoluímos para drogas mais pesadas como Aghata Christie; Harold Hobbins e Sidney Sheldon. Passamos por Machado de Assis; Ruth Rocha; Cora Coralina; Luiz Fernando Veríssimo e também alguns infanto-juvenis como: O Jardim Secreto; Reinações de Narizinho e Harry Potter (verdadeira febre, né magrela?!) mas o que nos uniu foi quando ganhamos a coletânea de tirinhas da Mafalda.

Mafalda, a garotinha cheia de opiniões criada pelo brilhante Quino faz 50 anos e é uma das maiores vozes do quadrinho latino-americano. Sou suspeito para falar, porém não acredito que alguém não se identifique com o Filipe, Manolito, Susanita, Miguelito (meu alter-ego segundo meu irmão), Guile e Liberdade que por um bom tempo foram nossos companheiros.

E sempre que posso cito minha tirinha favorita. Susanita diz que quando crescer quer ter muitos vestidos e a Mafalda responde que quer ter muita cultura. – “se você sair na rua sem cultura a polícia te prende?” –  Não! Responde Mafalda. – “Então experimenta sair sem vestido!”. No último quadrinho a Mafalda afirma é triste bater numa pessoa ainda mais quando ela tem razão.  

Outra frase que não esqueço é “somos poucos e nos conhecemos muito” que repito sempre que apontamos as manias dos nossos amigos (né Felipe?!).

Talvez o meu apego com a Mafalda tenha a ver com a nostalgia relacionada à minha infância, ou pelo fato de ser representada numa época que se brincava na rua e os amigos dela também frequentavam sua casa. Compreendo a carga política que a personagem carrega, mas no fundo é apenas uma criança curiosa e observadora, portanto uma das melhores companheiras para outras crianças em formação.

Hoje as conversas e amizades ocorrem no bar, mas as lembranças e a memória afetiva estão guardadas na Rua Tolstói que tem por paralela a Emile Zola e transversal à Máximo Gorki, acompanhada da perpendicular Oswald de Andrade que desemboca na Platão. Até pelo nome das ruas que passei chutando lata e arrumando confusão a literatura me acompanhava.

 

 

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