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modernidade forçada

Pobre Paulista, pobre paulistano!

A maior cidade do hemisfério sul não tem nada para comemorar

01/02/2020 20h51Atualizado há 2 semanas
Por: Jacson Andrade
Faria Lima novo centro de SP
Faria Lima novo centro de SP

Pobre Paulista é uma música do Ira que exalta o paulista e beira o preconceito com o migrante. Defensores dizem que a letra é uma provocação apenas, da minha parte acho letra e música bem fracas mas tenho que concordar com o pobre paulista exclamado a plenos pulmões pelo vocalista. Melhor: Pobre Paulistano!

O jornal “O Estado de São Paulo” jornalão preso aos ideais do século XIX, publicou como sempre o faz no dia 25/01, aniversário da cidade, um artigo que exalta as qualidades da cidade: “locomotiva do Brasil”, “moderna”, “criativa”, “congregação de povos”, “farol do desenvolvimento”. Talvez esses adjetivos se apliquem à megalópole mas me incomodou saber que viver nesse caos não há nada de grandioso, principalmente para quem não tem dinheiro.

Podem até defender a grande quantidade de aparelhos culturais (principalmente na região central – Sé e Avenida Paulista), bares e restaurantes aos montes e a vida noturna diversificada. Essas coisas existem e são bacanas, mas se você mora nos extremos da capital não é tão fácil assim aproveitar.

Ao ler o artigo comentei no Twitter que havia pouco a ser celebrado já que a cidade alaga, os rios estão podres, o ar poluído e o barulho quase insuportável, metrô insuficiente e a tremenda desigualdade social. Rapidamente alguns paulistãããããnos da gema vieram defender seu burgo. Fui chamado de invejoso, caipira dentre outros nomes que envergonhariam os mais puritanos.

As ofensas não me abalaram, mas achei a síndrome de Estocolmo que afeta os paulistanos curiosa e tentei entender os motivos sem muito sucesso. Definitivamente não faz sentido que os farialimers se orgulhem de viver/trabalhar no metro quadrado mais caro do Brasil tendo por vizinho o rio Pinheiros com suas águas negras, plásticos flutuantes e cheiro de esgoto, uma verdadeira latrina a céu aberto.

Não bastasse, estão expostos ao barulho do trânsito da marginal e da própria Faria Lima que só torna a coisa suportável graças aos vidros temperados e o ar-condicionado ligado o tempo inteiro. Aliás, a avenida que se pretende Manhattan sequer possui áreas verdes que permitam um alívio térmico, o calor ali é infernal. O que importa é a estética moderna do aço-vidro-concreto.

Atualmente quase 13 milhões de pessoas moram em São Paulo e outros 10 milhões dependem da cidade para trabalho, estudos, lazer ou serviços de saúde já que a maioria das cidades que compõe a região metropolitana não oferece essas oportunidades. Todos os dias milhares de pessoas se deslocam ao centro para as mais diversas atividades e o interessante é que o terminal da Barra Funda é a porta de entrada desses paulistas (pobres!).

A Barra Funda possui estações de trens da CPTM, a linha vermelha do metrô, terminal urbano e terminal rodoviário, também há diversos quiosques e pequenas lojas que auxiliam os passageiros apressados. Ela é uma síntese da cidade: barulhenta movimentada, pragmática e um trambolho de concreto. O próprio bairro também diz muito sobre a metrópole, outrora cheio de galpões industriais hoje se destacam edifícios residenciais e de serviços.

Entretanto o mais sintomático é que o bairro foi construído sobre a Várzea do Rio Tietê, portanto alaga de vez em sempre. E um dos alvos é o memorial da América Latina, uma área de 80 mil metros quadrados ao lado da estação da Barra Funda. São oitenta mil metros quadrados de concreto transformados em linhas arredondadas, uma passarela, pequenos bancos, espelhos d’água e um calçadão que tem algumas palmeiras para sei-lá-o-quê.

Demorei muito para descobrir a utilidade do Memorial, mas já vi alguns festivais de cinema, participei de feiras e vi algumas exposições bacanas como o “Guerra e Paz”, murais do Portinari que ficam expostos na sede da ONU. O problema é que uma área tão grande que poderia ser um belo parque é um deserto com alguns edifícios brancos, que apesar das linhas divertidas e modernas não fogem do padrão aço, vidro e concreto.

Um parque no memorial ajudaria a reduzir as temperaturas na região da Barra Funda, poderia absorver a água das chuvas de verão, e diminuiria o barulho dos automóveis a sua volta. Mas não, os paulistanos preferem essa modernidade forçada, uma cópia malfeita de Nova Iorque como na proposta de um parque linear sobre o Minhocão – avenida elevada que matou o centro velho da cidade, sendo que esse high line (nada mais paulistano que termos em inglês) só se presta ao mercado imobiliário. O viaduto continuará sendo dormitório dos desabrigados.

A chegada do verão e do aniversário da cidade são datas chaves para a cidade viver em alerta sob o risco de alagamentos e deslizamentos de encostas. O dia 25 de janeiro é uma data para os paulistanos celebrarem uma visão romântica da cidade e como todo refém que se apaixona pelo sequestrador não conseguem ver o sofrimento que lhe é infringido. Pior, não conseguem propor qualquer solução para esse caos.

O "paulistaner" vê a si mesmo e seu habitat como um farol para o resto do país e o que é mais grave, muitos brasileiros acreditam.

 

PS: este texto foi desenvolvido antes das chuvas que alagaram São Paulo neste sábado primeiro de fevereiro de 2020.

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