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Entretenimento Oscar 2020

Uma Petra no caminho do Oscar

Brasil concorre com Democracia em Vertigem

08/02/2020 14h10 Atualizada há 8 meses
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Por: Jacson Andrade
Uma Petra no caminho do Oscar

Todo ano é a mesma história: O maior prêmio da indústria de cinema estadunidense é celebrado ou esnobado ao sabor do freguês. Também tenho culpa nessa história e do alto da minha presunção já sacramentei: “Oscar não é sinônimo de qualidade, Cannes é que deve ser levado a sério...” tanto é verdade que o ‘O Pagador de Promessas’, clássico brasileiro de 1962, conquistou a Riviera francesa, porém Hollywood não lhe concedeu prêmio. Palma de Ouro 1 x 0 Oscar.

Já em 1999 a gloriosa Fernanda Montenegro pela atuação em ‘Central do Brasil’ foi preterida pela insossa Gwyneth Paltrow no esquecível ‘Shakespeare Apaixonado’ - prêmio mais roubado que o campeonato brasileiro de 2005. Detalhe: Fernanda levou o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim e concorreu ao Globo de Ouro.

Por mais que o Oscar seja um prêmio que celebra Hollywood e, do ponto de vista temático e na forma de fazer cinema não seja das mais ousadas, temos que reconhecer o prestígio e exposição trazidos ao ser indicado ou ganhar o prêmio da Academia. Tanto é que o Brasil experimenta certa ansiedade toda vez que o filme brasileiro é indicado. Neste ano temos um representante, ‘Democracia em Vertigem’ cuja indicação vem causando amor e ódio.

As redes sociais estão em polvorosa por conta deste documentário e não é para menos, tendo em vista que trata do impeachment da presidente Dilma em 2016 e tenta explicar os fenômenos que podem ter contribuído para este fato histórico, também traz à tona os efeitos após a queda do governo de esquerda que governou o Brasil por pouco mais de 13 anos.

                                                         

O filme tem sido acusado de ser parcial, de fato é parcial, mas não se pretende ser um relato jornalístico e sim uma narrativa extremamente pessoal da diretora Petra Costa e sua relação com a política. Tanto que Petra narra os acontecimentos num tom solene quase choroso, mas não se furta de discutir assuntos espinhosos, como a união do Partidos dos Trabalhadores com as tradicionais elites econômicas e políticas que sempre controlaram o Brasil e o fato de ser neta de um dos empreiteiros mais ricos do país cuja empresa volta e meia se vê envolvida nos escândalos de corrupção e, tampouco evita os escândalos de corrupção da era PT.

Sim, ali está a perspectiva de uma mulher de esquerda, mas não deixa de ser um documento histórico. É interessante perceber que fui testemunha ocular desses acontecimentos. A começar pelas jornadas de junho de 2013 onde assisti a polícia agredir manifestantes no protesto contra o aumento das passagens iniciado pelo movimento passe-livre. Naquela ocasião não participei dos atos e só mais tarde fui em duas ou três manifestações, desisti em seguida pelas pautas reacionárias que começaram a surgir. Havia cartazes pedindo ditadura militar, contra cotas nas universidades e redução da maioridade penal. Pulei fora, jamais marcharia ao lado dessa turba.

Mais tarde Dilma Roussef foi reeleita e estive na Av. Paulista para comemorar, ingenuamente, posto que a eleição deixaria um racha instransponível na política brasileira. Depois tivemos marchas contra o impeachment, que acompanhei no vão do MASP e no dia da votação pela abertura do processo de afastamento da presidente, assisti ao vexaminoso ato da câmara num telão instalado no vale do Anhagabaú. Quase não tive estômago já que o circo permitiu a “justificação” dos votos, ou seja, não bastava dizer sim ou não à abertura do processo. O voto era precedido de discursos pela família, pela pátria, contra a corrupção, e um deles aclamava um torturador. A náusea pela derrota foi acompanhada de medo das coisas que ali saíam do armário.

Acompanhei de perto os julgamentos das lideranças políticas, os áudios vazados sobre o acordo para impedir investigações, para silenciar antigos aliados presos, para mandar alguém buscar malas de dinheiro, de preferência alguém que pudessem matar em caso de delação. Assisti impassível a prisão do presidente Lula. E o mais triste: o desmonte de qualquer proteção social que o pobre e trabalhador brasileiro ainda tinha.

O filme me fez reviver todos esses momentos e foi angustiante lembrar os detalhes da farsa pelo qual esse país passou nos últimos anos que culminou num governo de milicianos, que alem de corrupto é incompetente. No entanto, a película funcionou como uma espécie de catarse e hoje me sinto mais leve.

Como dito no início, o Oscar premia o cinemão dos Estados Unidos e da Inglaterra e abre pouco espaço para produções estrangeiras, quando o faz não premia os melhores e sim as obras da casa. Se assim não fosse o vencedor deste domingo 09 de fevereiro seria Parasita, filme sul-coreano considerado o melhor de 2019 pelo público e pela crítica (já levou 300 mil pessoas aos cinemas brasileiros, feito raríssimo para um filme de autor ainda mais um filme oriental).

Dos nove concorrentes acredito que fica entre 1917, obra grandiosa sobre um dia durante a primeira guerra mundial e JoJo Rabbitt que nos traz a Alemanha nazista sob a ótica de um garoto de 10 anos que vê tudo de uma forma lúdica. Há algumas semelhanças com ‘A vida é bela’ de Roberto Benigni, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1999 em cima de...adivinhem...Central do Brasil do Walter Salles.  Chorei mas não havia como vencer uma trama sobre uma criança judia vivenciando os horrores de um campo de concentração, a Academia adora o tema. Jojo desperta certa empatia apesar de desta vez a criança bonitinha e simpática ser o algoz e não a vítima.

Sobre a categoria de melhor filme internacional ninguém vence Parasita e na de melhor documentário dificilmente ‘Democracia em vertigem’ vencerá, pois há dois concorrentes sobre a guerra na Síria e o queridinho produzido pelo casal Obama que trata das diferenças culturais que emergem quando uma empresa chinesa compra uma fornecedora de vidros para automóveis nos Estados Unidos. Creio que vai prevalecer o bairrismo neste caso, porém, não haverá derrota caso o documentário brasileiro saia sem a estatueta dourada, o simples fato de ter sido indicado é um animo num país que não valoriza sua cultura e esnoba principalmente a produção cinematográfica. Só de ver o incômodo causado pelo filme Petra Costa já é vitoriosa. Há uma pedra no caminho do Oscar e no sapato dos milicianos que estão no poder.

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