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Black Power Miami

Novo reinado na meca do cinema

23/01/2021 17h39 Atualizada há 1 mês
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Por: Jacson Andrade
Regina King reina
Regina King reina

A primeira vez que vi Regina King de fato, foi em American Crime série que não causou tanto barulho por aqui, uma pena, pois o formato é interessante. Trata-se de três temporadas com os mesmos atores principais atuando em papéis diferentes. Na primeira temporada Regina é uma jovem mulçumana cujo irmão está preso.  Na verdade não se vê muito dela, mas é impossível esquecer o rosto contornado pelo véu sagrado. Há algo de pantera nos olhos e nas maçãs do rosto, não de um jeito sexual como sempre associam aos felinos, penso que seja pela firmeza que ela mira para seu interlocutor em cena. Aquele destemor que os gatos lançam para os humanos que adentram seu território há muito conquistado.

Pois bem, os olhos avelã de Regina King estão prestes a observar a todos do alto, definitivamente do topo. Pela primeira vez um filme leva sua assinatura num mercado duro para mulheres e dez mil vezes mais difícil para uma mulher negra, mesmo Hollywood tendo se ajoelhado diante de Viola Davis, processo que atravessou mais de uma década. Ademais, muitos acreditaram que Halle Berry tinha escancarado as portas com seu Oscar de melhor atriz. Não deu, e as atrizes negras ainda precisam muitos anos de trabalho para consolidar suas carreiras.

Cena de Uma Noite em Miami

Irônico perceber que Halle Barry sofreu um baque na carreira justamente por conta de um felino – Mulher Gato foi um desastre e ninguém pagou um preço mais alto que Berry. Apesar disso, o caminho havia sido aberto e agora, quase 20 anos depois temos uma mulher no topo que pode levar diversos prêmios com o seu “Uma Noite em Miami” que estreou no Amazon Prime Video.

Uma noite em Miami é desses filmes que já nascem acima da média pelo valor histórico do momento que se pretende retratar. É como Tom Hanks ou Meryl Streep fazendo qualquer filme baseado em fatos reais, o trabalho pode ser mediano, mas nunca será desastre total (vide o filme sobre Margareth Thatcher). Nascida nos palcos a história narra uma possível/fictícia reunião entre MalcomX, Muhammad Ali, Sam Cooke e Jim Brown, homens negros que interferiram  na política, cultura, arte e esportes na América que não superou seu racismo inerente.

A direção segura não indica que este é o primeiro filme da ganhadora de um Oscar (melhor atriz coadjuvante por Se a Rua Beale Falasse) e quatro Emmys – o último por Watchman da HBO. Há momentos brilhantes como o diálogo entre Jim Brown e o dono de uma plantation que o impede de entrar na Casa-grande apesar de elogiar seu desempenho no futebol americano. Para mim essa deveria ser a cena de abertura do filme – não há tensão entre o Sinhozinho e o homem que poderia estar colhendo algodão não fosse um herói das 120 jardas, só camaradagens entre dois amantes de um esporte, fato que não impede que Jim Brown ouça “você sabe, não permitimos nigros dentro da casa”.  É a América/Brasil que ainda hoje transforma seu racismo em condescendência. 

Uma noite...” é um filme que pode ser cortante, no entanto transcorre sem sobressaltos ou grandes incômodos porque o embate é no diálogo. Malcom X como paladino da moral racial naquele grupo (acredito que para toda uma geração também) verbaliza sua frustração com o papel dos demais na busca por justiça racial – praticamente diz a Sam Cooke que ele era um vendido – ao mesmo tempo os conclama para construírem um futuro orgulhoso da raça, simplificando muito, o Black Power. Sam Cooke personifica a ideia de que o dinheiro vai ser a saída para os afrodescendentes, mesmo que essa ideia não saia de sua boca. A América ama dinheiro. 

A única coisa que me incomoda no filme não é necessariamente algo ruim, é o fato de se passar boa parte num quarto de hotel, estrutura trazida do teatro que não funciona muito bem no cinema e, por ser uma adaptação de uma peça o roteiro se estrutura basicamente nos diálogos, sagazes admito, no entanto acredito que os silêncios podem ter grandes efeitos dramáticos. A falta de silêncios também prejudica filmes adaptados do teatro por Viola Davis e Kerry Washington com A voz suprema do Blues protagonizado pela primeira e American Son liderado pela segunda. 

Kerry Washington

Viola é Ma Rainey uma das primeiras rainhas do blues, sua postura impositiva numa época que uma mulher jamais ousaria erguer a voz para um homem é quase surreal. No entanto, Ma está cansada dessa luta constante. Enquanto os homens, ainda que no andar de baixo podem fazer quase tudo o que quiserem essa liberdade se personifica em Levee, papel que dará dezenas de prêmios póstumos a Chadwick Boseman (também uma pantera negra) – perda precoce para as artes e, principalmente, para o que desejava Malcomn X. A emancipação completa da América negra, também pela arte conforme sugere o longa-metragem de madame King. 

Viola Davis

Também disponível na Netflix, American Son permeia a angustia de um casal birracial que aguarda notícias do filho que pode ter sido baleado durante uma abordagem policial, tema sempre atual ainda mais com o assassinato de George Floyd e João Alberto de Freitas que teve a vida ceifada brutalmente no Carrefour. Na tela vez fica evidente a condescendência misturada com indiferença da branquitude e a diferença de tratamento das autoridades para com a mulher negra. Também fica evidente que é possível amar alguém com a pele escura sem compreender minimamente as dores que a outra pessoa passa, as cicatrizes que carrega. American Son é um filme sobre um casal que um dia se amou mas não superou as diferenças, principalmente raciais. 

Três mulheres ferozes usam sua arte para discutir questões raciais nos Estados Unidos da América e ainda levar o pão para casa.  Luta de Hattie McDaniel (que ganhou o primeiro Oscar sendo uma mulher negra), da citada Halle Berry, de Whoopy Goldberg e seu gênio cômico/dramático e uma infinidade de talentos conhecidos e desconhecido mundo afora. Neste contexto, Regina King é uma pantera que caminhou discreta e elegantemente para tomar seu lugar no Olimpo Hollywoodiano. Diferentemente do reinado Black Power no pop há 20 anos, o reinado das atrizes afrodescendentes chegou um pouco atrasado ao cinema, entretanto, os olhos felinos cor de avelã controlados por Regina King serão visto por longos anos. Amém? 

PS: Esse texto foi escrito enquanto a trilha sonora da série Euphoria palpitava nas caixas de som. Zendaya a nova princesa das artes cênicas também arrebenta na música. O futuro Black Power está assegurado nos cinemas, na TV, nos rádios e nas grandes arenas por um bom tempo.

 

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